Amigas, colegas de trabalho, confidentes e sobretudo cúmplices na escrita. Marlene Silva e Paula Machado
quinta-feira, 3 de março de 2011
Tchaikovsky - A história de um cão abandonado
sábado, 5 de fevereiro de 2011
A bruxa que procurava o amor - Parte V
Nessa noite, a empregada não deixou nenhum vestido à bruxa. E quando esta decidiu ir vestida assim como estava, deparou-se com a porta do quarto trancada. A bruxa usou todos os seus poderes para se libertar, mas nenhum funcionou e concluiu então que a mãe do príncipe sabia de encantamentos muito superiores aos seus. Lembrou-se então do amigo lobo:
- Lobo da matilha perdida vem em meu auxílio.
E num segundo o lobo olhava-a através do espelho.
- A mãe do príncipe trancou-me aqui para não ir ao baile. Ajudas-me?
Mal terminou a pergunta, ouviu o clique da porta abrir-se.
- Obrigada, meu querido amigo.
Quando chegou ao baile, o rosto do príncipe abriu-se num sorriso. Procurara-a com o olhar toda a noite. Aproximou-se dela e convidou-a para dançar. Passaram toda a noite juntos, sem que o príncipe olhasse sequer para qualquer uma das pretendentes.
Na manhã seguinte e depois de um sono cheio de sonhos como nunca tinha vivido, a bruxa acordou com a claridade do dia a inundar o quarto. Quem afastava as cortinas era a mãe do príncipe. Nesse momento, a bruxa percebeu que a mulher lhe recordava da sua promessa de abandonar o palácio nesse mesmo dia e também nesse preciso momento lembrou-se que perdeu a sua única oportunidade de dar a poção ao príncipe e fazê-lo segui-la contra a vontade da mãe.
Vestiu-se, mas, quando colocava um pé, fora do palácio, o príncipe veio a correr na sua direcção.
- Já escolhi a minha noiva. Não te podes ir embora, porque és tu.
- Mas a tua mãe não gosta de mim. Além disso, eu sou uma bruxa e já fiz muitas maldades.
- Não me importa quem tu eras antes de nos conhecermos.
Então a bruxa contou toda a sua vida ao príncipe, inclusive a sua intenção de lhe dar uma poção mágica para o fazer apaixonar-se por si. E aí, tiveram uma ideia. Porque não dá-la à mãe de sua alteza?
E se assim pensaram, melhor o fizeram. A transformação da velha senhora foi surpreendente. O príncipe e a bruxa casaram, sob a sua bênção e protecção. Assim como a do velho sábio que visitou o casal para lhe dizer como estava orgulhoso por a sua amiga ter percebido a sua mensagem e não ter optado pelo caminho fácil. Feliz, o príncipe proporcionou alegria e prosperidade ao seu povo, enquanto a bruxa visitava frequentemente a sua aldeia natal para ajudar os habitantes. À noite, ouvia-se o uivo de um lobo que envolvia de encantamento o palácio.
FIM
Marlene Silva
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
A bruxa que procurava o amor - Parte III
Um dia bateu à porta da bruxa um mendigo. Esfomeado e a tremer de tanto frio, pedia um momento junto ao lume e um prato de comida. A bruxa hesitou em deixá-lo entrar. Era claramente alguém de fora da aldeia e temia as suas intenções. Mas havia algo no olhar dele que lhe despertava confiança. Deixou-o entrar e serviu-lhe um prato de sopa. Atiçou o fogo e foi, à luz das chamas, que percebeu que conhecia aquele rosto… Era o do velho sábio. Lendo o pensamento da bruxa, o sábio revelou-se:
- Vim ver com os meus próprios olhos aquilo que me chegou aos ouvidos. Seguiste o meu conselho e, por isso, serás recompensada: cultivaste e alimentaste o amor; está na hora de o colheres. A duas léguas daqui há um palácio e nele vive um príncipe à procura de noiva. Consultei a bola de cristal e ela diz-me que este é o homem que amarás e que te amará. Amanhã, partirás em viagem.
A bruxa lavou e a escovou cuidadosamente os seus cabelos, vestiu o seu melhor vestido e partiu.
O caminho era tortuoso. As raízes das árvores rompiam o chão e logo a bruxa teve de se descalçar para seguir caminho. As teias de aranha pespegavam-se aos cabelos e começou a enfurecer-se. De certeza que aquela era uma partida do velho. Príncipe algum se apaixonaria por uma desgrenhada.
Estava tão chateada a afastar as árvores e as teias de aranha que quando reparou num lobo parado à sua frente já estava quase em cima dele. Pela primeira vez, não conseguiu pensar em nenhum dos seus poderes para afastar o animal. Mas ele não atacou e acabou por se prostrar aos pés da bruxa. Foi aí que ela viu o sangue no pescoço do lobo. Passou a mão pelo pêlo ensanguentado, sujando-se ainda mais.
Marlene Silva
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
PÃO COM MANTEIGA & LEITE SIMPLES (histórias simples para gente que também o é...)
Na escola, a hora do recreio da tarde era aquela agitação. Finalmente chegava a pausa merecida com direito a lanche e tempo para brincadeiras. O relógio da barriga já tinha dado horas e os miúdos escolhiam a melhor sombra para disporem as suas lancheiras e retirar delas o seu repasto.
Hello Kitty, Homem Aranha, Noddy, Ruca, Wix, Panda e outros bonecos juntavam-se ao lanche! Estavam nas imagens das lancheiras, no pacote das bolachas, nas embalagens de sumo, em todas as saquetas coloridas que escondiam bolos e outras iguarias que pareciam fazer crescer água na boca. Pela cara de alguns meninos e meninas aquilo era mais fogo de vista que outra coisa, mas aquela novidade na prateleira do supermercado tinha-lhe valido uma birra e uma negociação com os pais em troca de alguns bons comportamentos, por isso, muitos, melhor, quase todos, diziam que aquilo era delicioso, bué de fixe mesmo. Mnham, Mham... Todos queriam provar estas refeições modernas e tão coloridas,
Bem todos, todos, não. Havia uma excepção: a Mafalda.
A diferença começava logo na lancheira da Mafalda. Não era de plástico, não era de cartão, não era de nenhum material xpto, hiper, mega moderno ( tipo dos que piscam e trazem livros de instruções). Mafalda tinham uma bolsa de pano, feita à mão e com um bordado que a identificada (um M e uma borboleta, uma borboleta porque quando a mãe de Mafalda andava grávida dizia que tinha borboletas na barriga. Por isso, quando a Mafalda nasceu não se livrou deste cognome voador)).
Mas voltando à bolsa lancheira, a criadora tinha sido a sua avó que já tinha feito o mesmo para as filhas e que fazia agora para as suas netas e sobrinhas.
Quando Mafalda se sentava e pousava a saquinha no colo, cuidadosamente, as outras miúdas comentavam baixinho: " Lá vem ela com o seu artesanto", e lá se soltavam uns risinhos irónicos que Mafalda ignorava com a sua terna sabedoria.
Até que alguém, mais atrevido, decidiu perceber porque é que Mafalda não tinha uma lancheira da moda, nem trazia para a escola lanches "normais".
Mafalda sorriu e decidiu revelar o seu segredo ao colegas.
Afinal, os seus lanches eram muito mais normais do que os deles. Não precisavam de chocolate, de recheios ou ter pintarolas para serem mágicos.
A magia começava na saquinha de pano, feita pela avó, só para ela, com o carinho que uma avó pode colocar em todas as coisas que faz para os seus netos. Era ecológica, lavava-se com facilidade e podia ser sempre reutilizada. O pão com manteiga não era um pão normal. Era um pão em forma de flor, da padaria do Sr. Carlos, que já tinha fornecido o pão quando os avós eram mais novos, quando os pais eram crianças e que agora fazia para ela. O truque, como dizia, o Sr. Carlos é comer pétala a pétala e deixar o "coração" da flor para o fim. Era lá que a mãe colocava a nozinha de manteiga que derretia na boca na ultima trinca.
" Deixa o melhor para mim, Mafalda. Não te esqueças". E ela não se esquecia.
E o leite, simples porquê? Porque o leite ou é ou não é. Com chocolate, ficava castanho, confundiam-se aromas e sabores. O chocolate é chocolate, o leite é leite e faz muito melhor assim.
Os amigos ouviram a história concentrados em todos os detalhes. Afinal, a Mafalda podia comer todas as guloseimas do mundo. Mas seriam esses lanches, mesmo lanches? Ou guloseimas que se rotulam de lanches de crescimento e afins?
Afinal, o lanche da Mafalda não precisava de ter bonecos para também ser (e contar) uma história, uma história simples mas que era a dela e só dela.
Curioso, curioso, foi ver os lanches dos meninos no dia seguinte. Um trouxe um cesto de maçãs do pomar do avô, o outro tostas com doce de amora que a mãe tinha feito, outra um cestinho com bolachas de manteiga que tinha feito com a irmã, e outro..., e outro...
A partir desse dia, os meninos começaram a fazer lanches partilhados. Cada um trazia o seu contributo, a sua sugestão e o mais curioso?
Nenhuma vinha em embalagens da moda nem tinha saído directamente da prateleira do supermercado...
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
BICHINHOS CARPINTEIROS – conto à desgarrada I
A culpa é deles, mãe, é deles! Dos bichinhos carpinteiros!
Eu digo-te os bichinhos carpinteiros, João, digo, digo...
Era nesta altura que João saltava da beira da mãe e corria a velocidade cruzeiro. Ninguém acreditava nele mas aquilo que aos olhos dos outros eram asneiras e disparates era obra e graça dos bichinhos carpinteiros que habitavam o seu corpo, todas as partes do seu corpo. Verdadeiros exércitos de bichinhos carpinteiros que estavam ali, frente aos seus olhos, nas suas mãos, mais precisamente nas pontas dos seus dedos, nos seus pés, na cabeça, nos braços, nas pernas, enfim, por todo o lado. Os bichinhos carpinteiros acordavam e adormeciam com ele, partilhavam sorrisos e angústias, confidências e cumplicidades. Já nem imagina a sua vida sem eles. O grande problema era que mais ninguém os via. Só o João. Por mais que explicasse, por mais que insistisse que eles estavam ali ninguém acreditava. Em casa, os pais viam os bichinhos carpinteiros como uma desculpa, na escola a professora aconselhava a procurar ajuda especializada, porque achava que o João era hiperativo e os amigos chamavam-lhe o "inventor de histórias" ou o "chaladinho".
Por isso, quando os bichinhos carpinteiros falavam, ele assobiava, tentanto com o seu sopro levá-los para longe. Era aí que eles recorriam ao truz, truz, mesmo em cima da sua cabeça. Acontecia-lhe sobretudo em momentos delicados. Por exemplo durante a prova de português, naquela parte da composição e a professora Luísa achava que aquilo era a maneira dele fugir às tarefas que não gostava. Em casa, os bichinhos carpinteiros chegavam quando na hora das tarefas: pôr a mesa, fazer os TPC, lavar a loiça ou na hora de dormir.
Naquela tarde, a mãe tinha-se zangado à séria com o João. Tinha-lhe pedido para arrumar o quarto e fechar as janelas porque o tempo ameaçava chover mas o convite dos bichinhos carpinteiros tinha sido mais tentador: uma corrida de barreiras com as galinhas lá da casa. Ora o resultado foi o esperado: animação total no galinheiro e um cenário de devastação. A vizinha Rosa tinha estranhado. Mas para ela o João era a animação lá da terra. O João e os seus bichinhos carpinteiros. A história tinha começado a circular e já andava na boca do povo, como se costuma dizer.
A mãe tinha chegado ao limite.
É desta, João. É desta que te levo ao doutor Hilário e te interno. E olha que falo a sério! Peço para reservar uma ala do hospital só para ti , para ti e para o teu exército de bichinhos carpinteiros.
Deixa lá, Teresa – dizia a vizinha Rosa – o miúdo tem de ter os seus amigos, mesmo que imaginários. E se ele os vê...
Teresa, ficou de boca aberta a olhar para Rosa. E pensou com os seus botões, e a "doença" do filho seria contagiosa.
No dia seguinte...
Paula Machado
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
"A bruxa que procurava o amor" - Parte II
A bruxa voltou à floresta e, quanto mais pensava, mais desiludida se sentia. Julgava que o sábio a ajudaria, mas, em vez disso, deu-lhe uma lição de moral. “Que chatice! O raio do velho…” Ia assim compenetrada nos seus pensamentos quando ouviu uma rapariga a gritar: - Ajudem-me! Socorro, ajudem-me! Dirigiu-se para o local de onde vinham os gritos e deparou-se com uma jovem a ser agarrada por um homem. Instintivamente, utilizou a força da sua mente para atirar o homem contra o chão, que logo desatou a correr.
- Obrigada, muito obrigada – agradeceu a rapariga.
E, nesse preciso momento, a bruxa percebeu as palavras do sábio: “para encontrar o amor é preciso cultivá-lo”.
A notícia do feito da bruxa logo chegou à aldeia e rapidamente se espalhou. Inicialmente, os habitantes estranharam a repentina bondade da bruxa, mas logo se convenceram porque os seus bons actos para com crianças e animais não paravam de correr de boca em boca.
Marlene Silva
CONTINUA...
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Conto Maravilhoso "A bruxa que procurava o amor" - Parte I
Era uma vez uma bruxa. Mas não uma bruxa qualquer. Era extremamente bela com os seus cabelos negros, muito lisos, que chegavam à cintura. A sua beleza era admirada por todos os que viviam na pequena aldeia. Sobretudo pelos homens, que eram também as suas principais vítimas. A bruxa concebia poções mágicas que lhes dava a beber e que os faziam apaixonar-se loucamente por ela. Não viam mais nada para além da sua beleza e viam nos seus defeitos as maiores qualidades. Deixavam as esposas, as noivas, as mães para implorarem pela atenção da bruxa, que nem os deixava passar da porta. Tornavam-se vagabundos por amor…
A bruxa enfeitiçava-os por mero gozo e para encher a sua vida vazia de amor e amigos. Sempre se afastaram dela – ou por inveja da sua beleza ou por receio dos seus poderes mágicos. Sonhava com um homem que a amasse, que visse nela mais do que ela própria, com quem formasse uma família feliz.
Vivia numa floresta perto da aldeia um velho sábio, cuja existência a bruxa fazia por ignorar, uma vez que ele, ao contrário dela, usava a sua magia para ajudar. Um dia, a bruxa acordou cansada, sem vontade de fazer maldades e apenas com um grande desespero no peito. Foi então que decidiu pedir ajuda ao velho – talvez ele lhe desse a receita de uma poção que resolvesse os seus problemas.
Ao vê-la, o sábio surpreendeu-se:
- Não és tu a bruxa da aldeia?
- Sim, sábio. Preciso da tua ajuda.
- Da minha ajuda? Já devias saber que eu não uso os meus poderes para fazer mal às pessoas.
- Não. Tu não compreendes. Eu não sou tão má como todos pensam. Estou vazia… vazia de amor.
- Claro que estás, minha filha. O amor é como uma planta, cultiva-se e alimenta-se e tu não o fazes.
- Sim, mas não tens nenhuma receita, nenhuma poção que eu possa dar a alguém para me amar de verdade?
- Não – enfureceu-se o velho. Tu procuras sempre o caminho mais fácil. Nunca encontrarás o amor assim. E também não é magoando os outros que vais preencher o vazio que sentes. Já olhaste bem à tua volta? Na aldeia, há pobreza, casais desavindos e crianças sem sonhos. Só cultivando o amor, encontrarás o amor.
... CONTINUA
Marlene Silva