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sábado, 5 de fevereiro de 2011

A bruxa que procurava o amor - Parte V

Nessa noite, a empregada não deixou nenhum vestido à bruxa. E quando esta decidiu ir vestida assim como estava, deparou-se com a porta do quarto trancada. A bruxa usou todos os seus poderes para se libertar, mas nenhum funcionou e concluiu então que a mãe do príncipe sabia de encantamentos muito superiores aos seus. Lembrou-se então do amigo lobo:

- Lobo da matilha perdida vem em meu auxílio.

E num segundo o lobo olhava-a através do espelho.

- A mãe do príncipe trancou-me aqui para não ir ao baile. Ajudas-me?

Mal terminou a pergunta, ouviu o clique da porta abrir-se.

- Obrigada, meu querido amigo.

Quando chegou ao baile, o rosto do príncipe abriu-se num sorriso. Procurara-a com o olhar toda a noite. Aproximou-se dela e convidou-a para dançar. Passaram toda a noite juntos, sem que o príncipe olhasse sequer para qualquer uma das pretendentes.

Na manhã seguinte e depois de um sono cheio de sonhos como nunca tinha vivido, a bruxa acordou com a claridade do dia a inundar o quarto. Quem afastava as cortinas era a mãe do príncipe. Nesse momento, a bruxa percebeu que a mulher lhe recordava da sua promessa de abandonar o palácio nesse mesmo dia e também nesse preciso momento lembrou-se que perdeu a sua única oportunidade de dar a poção ao príncipe e fazê-lo segui-la contra a vontade da mãe.

Vestiu-se, mas, quando colocava um pé, fora do palácio, o príncipe veio a correr na sua direcção.

- Já escolhi a minha noiva. Não te podes ir embora, porque és tu.

- Mas a tua mãe não gosta de mim. Além disso, eu sou uma bruxa e já fiz muitas maldades.

- Não me importa quem tu eras antes de nos conhecermos.

Então a bruxa contou toda a sua vida ao príncipe, inclusive a sua intenção de lhe dar uma poção mágica para o fazer apaixonar-se por si. E aí, tiveram uma ideia. Porque não dá-la à mãe de sua alteza?

E se assim pensaram, melhor o fizeram. A transformação da velha senhora foi surpreendente. O príncipe e a bruxa casaram, sob a sua bênção e protecção. Assim como a do velho sábio que visitou o casal para lhe dizer como estava orgulhoso por a sua amiga ter percebido a sua mensagem e não ter optado pelo caminho fácil. Feliz, o príncipe proporcionou alegria e prosperidade ao seu povo, enquanto a bruxa visitava frequentemente a sua aldeia natal para ajudar os habitantes. À noite, ouvia-se o uivo de um lobo que envolvia de encantamento o palácio.


FIM


Marlene Silva

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A bruxa que procurava o amor - Parte III

Um dia bateu à porta da bruxa um mendigo. Esfomeado e a tremer de tanto frio, pedia um momento junto ao lume e um prato de comida. A bruxa hesitou em deixá-lo entrar. Era claramente alguém de fora da aldeia e temia as suas intenções. Mas havia algo no olhar dele que lhe despertava confiança. Deixou-o entrar e serviu-lhe um prato de sopa. Atiçou o fogo e foi, à luz das chamas, que percebeu que conhecia aquele rosto… Era o do velho sábio. Lendo o pensamento da bruxa, o sábio revelou-se:

- Vim ver com os meus próprios olhos aquilo que me chegou aos ouvidos. Seguiste o meu conselho e, por isso, serás recompensada: cultivaste e alimentaste o amor; está na hora de o colheres. A duas léguas daqui há um palácio e nele vive um príncipe à procura de noiva. Consultei a bola de cristal e ela diz-me que este é o homem que amarás e que te amará. Amanhã, partirás em viagem.

A bruxa lavou e a escovou cuidadosamente os seus cabelos, vestiu o seu melhor vestido e partiu.

O caminho era tortuoso. As raízes das árvores rompiam o chão e logo a bruxa teve de se descalçar para seguir caminho. As teias de aranha pespegavam-se aos cabelos e começou a enfurecer-se. De certeza que aquela era uma partida do velho. Príncipe algum se apaixonaria por uma desgrenhada.

Estava tão chateada a afastar as árvores e as teias de aranha que quando reparou num lobo parado à sua frente já estava quase em cima dele. Pela primeira vez, não conseguiu pensar em nenhum dos seus poderes para afastar o animal. Mas ele não atacou e acabou por se prostrar aos pés da bruxa. Foi aí que ela viu o sangue no pescoço do lobo. Passou a mão pelo pêlo ensanguentado, sujando-se ainda mais.


Marlene Silva


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"A bruxa que procurava o amor" - Parte II

A bruxa voltou à floresta e, quanto mais pensava, mais desiludida se sentia. Julgava que o sábio a ajudaria, mas, em vez disso, deu-lhe uma lição de moral. “Que chatice! O raio do velho…” Ia assim compenetrada nos seus pensamentos quando ouviu uma rapariga a gritar: - Ajudem-me! Socorro, ajudem-me! Dirigiu-se para o local de onde vinham os gritos e deparou-se com uma jovem a ser agarrada por um homem. Instintivamente, utilizou a força da sua mente para atirar o homem contra o chão, que logo desatou a correr.

- Obrigada, muito obrigada – agradeceu a rapariga.

E, nesse preciso momento, a bruxa percebeu as palavras do sábio: “para encontrar o amor é preciso cultivá-lo”.

A notícia do feito da bruxa logo chegou à aldeia e rapidamente se espalhou. Inicialmente, os habitantes estranharam a repentina bondade da bruxa, mas logo se convenceram porque os seus bons actos para com crianças e animais não paravam de correr de boca em boca.


Marlene Silva


CONTINUA...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Conto Maravilhoso "A bruxa que procurava o amor" - Parte I

Era uma vez uma bruxa. Mas não uma bruxa qualquer. Era extremamente bela com os seus cabelos negros, muito lisos, que chegavam à cintura. A sua beleza era admirada por todos os que viviam na pequena aldeia. Sobretudo pelos homens, que eram também as suas principais vítimas. A bruxa concebia poções mágicas que lhes dava a beber e que os faziam apaixonar-se loucamente por ela. Não viam mais nada para além da sua beleza e viam nos seus defeitos as maiores qualidades. Deixavam as esposas, as noivas, as mães para implorarem pela atenção da bruxa, que nem os deixava passar da porta. Tornavam-se vagabundos por amor…

A bruxa enfeitiçava-os por mero gozo e para encher a sua vida vazia de amor e amigos. Sempre se afastaram dela – ou por inveja da sua beleza ou por receio dos seus poderes mágicos. Sonhava com um homem que a amasse, que visse nela mais do que ela própria, com quem formasse uma família feliz.

Vivia numa floresta perto da aldeia um velho sábio, cuja existência a bruxa fazia por ignorar, uma vez que ele, ao contrário dela, usava a sua magia para ajudar. Um dia, a bruxa acordou cansada, sem vontade de fazer maldades e apenas com um grande desespero no peito. Foi então que decidiu pedir ajuda ao velho – talvez ele lhe desse a receita de uma poção que resolvesse os seus problemas.

Ao vê-la, o sábio surpreendeu-se:

- Não és tu a bruxa da aldeia?

- Sim, sábio. Preciso da tua ajuda.

- Da minha ajuda? Já devias saber que eu não uso os meus poderes para fazer mal às pessoas.

- Não. Tu não compreendes. Eu não sou tão má como todos pensam. Estou vazia… vazia de amor.

- Claro que estás, minha filha. O amor é como uma planta, cultiva-se e alimenta-se e tu não o fazes.

- Sim, mas não tens nenhuma receita, nenhuma poção que eu possa dar a alguém para me amar de verdade?

- Não – enfureceu-se o velho. Tu procuras sempre o caminho mais fácil. Nunca encontrarás o amor assim. E também não é magoando os outros que vais preencher o vazio que sentes. Já olhaste bem à tua volta? Na aldeia, há pobreza, casais desavindos e crianças sem sonhos. Só cultivando o amor, encontrarás o amor.


... CONTINUA


Marlene Silva